quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Poema Menino Jesus - Fernando Pessoa

Poema do Menino Jesus

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido." -
"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?

Alberto Caeiro

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O Fácil é Certo! Chuang Tzu

Chuang Tsu: O Fácil é Certo!
"O fácil é certo. Comece certo e tudo será fácil. Continue no fácil, e você estará certo. O modo certo de estar no fácil é esquecer o caminho certo. E esquecer que o fluxo é fácil", Chuang Tsu

O construtor da Natureza (Deus) não é sádico, não se diverte nos dando problemas complicados para resolver. Sabendo disso, Chuang Tsu nos exorta para sermos natural. Tudo que não seja natural deve ser evitado. Nada faça que não seja natural. A natureza é o suficiente e não podemos melhorá-la.

Mas o nosso ego diz: não, podemos melhorar a natureza, e é porisso que existe a cultura. Qualquer tentativa de melhorar a natureza é cultura, e toda cultura é como uma doença: quanto mais culto for um homem, mais perigoso será. Chuang Tsu não é adepto da cultura. Ele afirma que a natureza é o valor supremo, e a essa natureza suprema ele dá o nome de Tao. Tao significa que a natureza é o que há de supremo e não pode ser aperfeiçoada. Quando se tenta aperfeiçoá-la, ela é mutilada.

É assim que mutilamos nossas crianças. Toda criança nasce no Tao, e então a mutilamos com a sociedade, a civilização, a cultura, a moral, a religião... tratamos de mutilá-la de todos os jeitos. E ela vive, mas não está viva.

Quanto mais culto e civilizado, mais morto. Se quiser ver homens perfeitamente mortos, apesar de vivos, vá visitar os monges nos mosteiros, procure os padres nas igrejas, vá ao encontro do papa no Vaticano. Eles não estão vivos: têm tanto medo da vida, tanto medo da Natureza que trataram de suprimi-las com regras. Já estão no túmulo. Podemos pintar o túmulo, podemos até fazer um túmulo de mármore, muito caro, mas o sujeito lá dentro está morto.

A cultura nos mata, é uma assassina, um veneno que age lentamente: é o suicídio. Chuang Tzu e seu velho mestre, Lao Tzu, são contra a cultura. São a favor da Natureza, da natureza pura. As árvores estão em melhor situação que você, até os pássaros, os peixes do rio estão em melhor situação, pois têm mais vida, dançam mais ao ritmo da natureza.

Você nasceu: que esforço você fez para nascer? Você cresce: que esforço terá feito para crescer? Você respira: que esforço faz para respirar? Tudo se move por conta própria, por que então preocupar-se? Deixe a vida fluir por si mesma, e você estará indo junto. Não lute nem tente ir contra a corrente. Seja uma nuvem branca movendo-se no céu: nenhum objetivo, indo para lugar nenhum, simplesmente flutuando. Esse flutuar é o supremo desabrochar. Idéias do revolucionário Chuang Tzu...

Você esqueceu completamente o que é a natureza. Condenou-a radicalmente. E se quiser condenar a natureza você tem de começar condenando o sexo, pois é dele que emana toda a natureza. A natureza inteira é um transbordamento de energia sexual, de amor. Os pássaros cantam, as árvores florescem: tudo isso é energia sexual explodindo. As flores são símbolos sexuais, o canto dos pássaros é sexual, todo o Tao não passa de energia sexual: a natureza inteira se propaga, se ama, orienta-se para êxtases mais profundos de amor e vida. Portanto, se você quiser destruir a natureza, condene o sexo, condene o amor, erija conceitos morais em torno da vida. Esses conceitos morais, por mais belos que pareçam, serão como túmulos de mármore, e você estará em seu interior. Sua moralidade é uma espécie de morte: antes de ser morto pela morte, você é morto pela sociedade moralista.

Porisso é que a mensagem de Chuang Tzu é uma das mais perigosas, das mais revolucionárias, das mais rebeldes, pois ele afirma: "Deixe a natureza ser! E não lhe atribua meta alguma. Quem é você para criar metas e objetivos? Você é apenas uma partícula minúscula, uma célula atômica. Quem é você para obrigar o Todo a se mover de acordo com a sua vontade?". Esse perigo é maior para as pessoas religiosas, para os puritanos moralistas. Esta mensagem é muito perigosa. Significa romper todas as barreiras, permitir que a natureza se manifeste sem nenhum controle - é mesmo muito perigoso.

Os padres têm medo da saúde porque, para eles, ela é imoral. Você talvez tenha ouvido falar de um pensador alemão do Século XX, muito famoso em sua época - o conde Keyserling. Ele era considerado um grande filósofo religioso, e escreveu em seu diário: a saúde é a coisa mais imoral que existe. Pois saúde é energia, e energia é prazer, contentamento, energia é amor, é sexo, tudo que é natural. Destruir a energia, torná-la fraca e vacilante. Donde tanto jejum - simplesmente para destruir a energia, impedir que se manifeste tanta energia, que comece a transbordar. As pessoas religiosas sempre acharam que a saúde é perigosa. Deixar de ser saudável torna-se, portanto, uma meta espiritual.

Chuang Tzu é muito rebelde. Diz ele: "A natureza, a energia e o êxtase que vêm com o transbordamento, assim como o equilíbrio que se manifesta espontaneamente, são o suficiente". Não é preciso nenhum esforço para isso. Existe tanta beleza acontecendo na natureza sem nenhum esforço: uma rosa é bela sem nenhum esforço, o cuco canta sem nenhum esforço...

Veja a natureza: tudo é tão perfeito. Será possível aperfeiçoar uma rosa? Será possível aperfeiçoar a natureza de alguma forma? Só o homem deu errado em algum momento. Se a rosa é bela sem fazer esforço, por que não o homem? O que há de errado com o homem? Se as estrelas continuam belas sem nenhum esforço, sem posições de ioga, por que não o homem? O homem faz parte da natureza, assim como as estrelas. De modo que Chuang Tzu diz: "Seja natural, e você florescerá". Se se compenetrar desse entendimento cada vez mais profundamente, todo esforço haverá de perder o sentido. Você deixará de estar o tempo todo providenciando coisas para o futuro, passará a viver no aqui e agora, o momento presente será tudo, este momento é a eternidade. E o estado búdico já é uma realidade, você já é um buda. A única coisa que falta é que você ainda não permitiu o seu desabrochar, tão ocupado está em seus projetos.

A flor floresce sem nenhum esforço porque a energia não é dissipada em projetos; a flor não planeja para o futuro, a flor é, aqui e agora. Seja como uma flor, seja como um pássaro, seja como uma árvore, um rio ou o oceano - mas não seja como um homem. Pois o homem, de alguma forma, deu errado.

A natureza é ser natural - natural sem esforço, espontaneamente natural -, eis a essência dos ensinamentos que nos deixou Chuang Tzu. Chuang Tzu é muito especial. Sua singularidade é que ele fala através de absurdos. E é muito significativo o motivo pelo qual ele escolhe o absurdo como forma de expressão: a mente precisa ser calada. Com as coisas racionais, ela não pára de funcionar; ela está sempre indo adiante. Em qualquer coisa lógica que se manifeste a mente encontra o seu alimento. Só o absurdo é capaz de chocar repentinamente a mente - pois isto está fora do seu alcance.

As histórias, os poemas e as declarações de Chuang Tzu eram tão absurdos que as pessoas costumavam simplesmente deixá-lo, pensando que ele era maluco... Os que eram suficientemente corajosos para permanecer a seu lado, constatavam que não era necessária nenhuma outra meditação. Pelo simples fato de ouvir suas afirmações absurdas, a mente pára de funcionar. E é esse o significado principal da meditação. Chuang Tzu fala por absurdos, e a mente não consegue lidar com eles. A mente precisa de coisas razoáveis, racionais, lógicas; esse é o seu território. O absurdo está além do seu alcance.

Os ensinamentos de Chuang Tzu eram muito simples, e todos aqueles que ficaram a seu lado tornaram-se iluminados. Isto é um fenômeno raro. Neste quesito, ele derrotou até mesmo o seu próprio mestre Lao Tzu: algumas pessoas se tornaram iluminadas, mas a maioria dos discípulos de Lao Tzu permaneceu na antiga ignorância. Ele derrotou também Gautama Buda: alguns poucos de seus discípulos tornaram-se iluminados, mas numa proporção muito pequena, pois ele tinha milhares de discípulos, e não mais que uma dúzia deles se tornou iluminada. Todos os discípulos de Chuang Tzu tornaram-se iluminados... ele não os abandonava enquanto não se tivessem iluminado! Ele tanto ficava em cima que as pessoas acabavam decidindo que era melhor tornar-se iluminado. Diariamente, uma nova tortura... a única maneira de escapar disso era tornar-se iluminado.

Duas passagens da vida de Chuang Tzu:

1. A mulher de Chuang Tzu morreu e o imperador veio prestar suas homenagens. Encontrou Chuang Tzu cantando. Sentado sob uma árvore, ele tocava um instrumento e cantava em voz alta. Parecia muito feliz, e sua mulher morrera naquela mesma manhã. O imperador ficou sem graça e disse: "Chuang Tzu, é estranho que você não esteja chorando, mas cantar já é demais. É ir longe demais!".

Chuang Tzu perguntou: "Mas por que eu deveria chorar?"

E o imperador disse: "Parece que você não está sabendo que sua mulher morreu".

Chuang Tzu respondeu: "Claro que a minha mulher morreu. Mas por que eu deveria chorar? Se ela morreu, morreu. E eu nunca imaginei que ela pudesse viver para sempre. Sempre soube que um dia ela haveria de morrer, e esse dia chegou. Algum dia tinha de acontecer. E qualquer dia é bom para morrer; portanto, por que eu não deveria estar cantando? Se eu não pudesse cantar quando vem a morte, não poderia cantar a vida toda, pois a vida é uma contínua morte. A todo momento a morte chega para alguém em algum lugar. A vida é uma contínua morte. Se não puder cantar no momento da morte, simplesmente não poderei cantar nunca.

"A vida e a morte não são coisas diferentes. São a mesma coisa. No momento em que alguém nasce, nasce também a morte com ele. Quando você cresce na vida, está crescendo também na morte, e o que quer que seja conhecido como morte, nada mais é que o apogeu da sua chamada vida. Por que eu então não haveria de cantar? Além do mais, a pobre mulher viveu tantos anos comigo, e eu não teria o direito de cantar um pouco em sinal de gratidão quando ela parte? Que ela vá em paz, harmonia, música e amor. Por que teria eu de chorar?

"Nós só choramos quando esperamos alguma coisa e essa coisa não acontece. Eu nunca imaginei que ela fosse ficar aqui para sempre. Quando não esperamos, quando não desejamos, não podemos ficar insatisfeitos".

No caso de uma pessoa como Chuang Tzu ou Buda, o fato de fracassarem ou terem êxito é imaterial. É irrelevante. Eles estão sempre satisfeitos. A pessoa que está no contentamento não sente nenhuma diferença entre o fracasso e o sucesso. Nem poderia. Já não existe diferença, para essa pessoa. O que quer que aconteça, ela estará satisfeita. Não quer saber se fracassou ou teve êxito, pois não existe o desejo de alcançar determinado resultado, de garantir determinado futuro. O que quer que aconteça, o futuro está garantido. A pessoa está pronta para absorvê-lo, qualquer que ele seja.

2. Sempre que alguém dizia alguma coisa, Chuang Tzu dizia: "Bom, muito bom!". Era um hábito. De modo que às vezes a situação ficava muito esquisita, pois alguém dizia alguma coisa que não era boa e ele sequer ouvia. Limitava-se a dizer: "Bom, muito bom!". Alguém estava dizendo: "Minha mulher morreu", e Chuang Tzu dizia: "Bom, muito bom!", como se não tivesse ouvido. Alguém dizia: "Assaltaram a minha casa durante a noite e levaram tudo". Mas Chuang Tzu continuava dizendo: "Bom, muito bom!".

Certo dia, alguém disse: "Seu filho caiu da árvore e quebrou as duas pernas". E ele: "Bom, muito bom!". As pessoas começaram a pensar, então, que ele não sabia o significado de "bom" - pois se não existe nada ruim, se tudo é bom, estamos atravessando as fronteiras da linguagem convencional. Promoveu-se, então, uma reunião na aldeia, e perguntaram para ele: "Por favor, diga-nos o que quer dizer quando diz 'bom', pois as mais diversas informações têm sido dadas, falando inclusive de desgraças e mortes, e o senhor diz sempre 'bom'. E hoje de manhã seu próprio filho caiu da árvore, quebrando as duas pernas. Ele era o seu arrimo na velhice, seu único arrimo. Era ele qeu o servia até agora, mas os papeis terão de se inverter. Numa idade tão avançada, é uma infelicidade, mas o senhor disse'bom'".

Chuang Tzu disse: "Esperem! A vida é uma coisa muito complexa".

E no dia seguinte aconteceu que o país entrou em guerra com o país vizinho, e todos os jovens do sexo masculino eram obrigados a prestar o serviço militar. Só o filho de Chuang Tzu foi poupado, pois estava com as duas pernas quebradas. E eles reconheceram: "O senhor aparentemente tem uma percepção muito profunda das coisas. Disse 'bom', e se revelou que era mesmo 'bom'".

Chuang Tzu respondeu: "Esperem! Não se apressem assim. A vida é muito complexa e as coisas continuam acontecendo!".

O filho acabara de noivar, mas no dia seguinte a família da noiva recusou-se a autorizar o casamento, pois agora já não havia esperança de que ele voltasse a andar; suas pernas estavam muito machucadas. As pessoas então disseram: "Parece que, afinal de contas, não era uma boa coisa".

E Chuang Tzu disse: "Esperem! Não se apressem. A vida é muito paciente".

Passada uma semana, a jovem destinada a ser esposa de seu filho, e que lhe fora negada pela família, morreu subitamente. E os aldeões voltaram a se manifestar: "Mas come é possível?! O senhor tem um percepção incrível! Sabia que ela ia morrer?".

Mas Chuang Tzu insistia: "Esperem! Esperem!".

Chuang Tzu havia dito que tudo é bom quando não temos expectativas (já que a nossa "Equipe de Supervisão" encadeia os eventos da melhor forma possível...). E a vida é infinita, mas a nossa paciência é tão curta...

Fonte:
Osho, Encontro com Pessoas Notáveis, Editora Academia de Inteligência, São Paulo-SP, 2009.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Interpretação “FERNÃO CAPELO GAIVOTA” de Richard Bach

Acredito que a leitura em geral e a leitura de um livro em particular é um processo, em si, maravilhoso e prazeroso. Mas penso também que, o exercício de ler e fazer uma análise daquilo que foi lido carrega muito a influência do momento pelo qual aquele leitor está passando e muda bastante entre uma e outra pessoa, de acordo com seus valores e formas de ver o mundo. Portanto, fazer a interpretação de um livro naturalmente será uma análise de si mesmo. No caso do Fernão Gaivota isso é ainda mais forte por sua temática e no meu caso porque li o livro em dois momentos especiais de minha vida. Assim, analisar o livro será, em grande parte, falar sobre mim mesmo.
A enorme maioria das gaivotas se preocupa apenas com a pura e simples sobrevivência. Algo medíocre, através da disputa sangrenta por restos de peixes jogados por pesqueiros. O ato de voar é desvalorizado e se reduz a uma prática secundária para catar e brigar por esses restos de alimentos.
Já Fernão, ao contrário, busca ganhar todo conhecimento disponível no mundo e ir além da rotina básica. Ele persegue a perfeição de seu vôo, o que pode ser comparado com uma busca espiritual e da perfeição (saudável) que pode ser feita por todo ser humano, mas nem sempre acontece. Isso significa perseguir a liberdade e ultrapassar todos os seus limites.
Aqui verificamos uma comparação em forma de alegoria entre o bando de gaivotas e nossa sociedade. Há uma repressão e censura de Fernão por seu comportamento diferente considerado “anormal” pelo resto do bando e de seus líderes. Eles são como cavalos usando tapa olho, bitolados e obtusos.
A sociedade reprimi a criança durante seu crescimento, de forma que todos nós acabamos por perder a curiosidade inocente em observar, conhecer o mundo e experimentar o diferente. A questão da risada, da brincadeira e do corpo livre é deixada de lado. Você deve perder a inocência e virar adulto. Ou seja, “deixe de ser criança” e participe desse sistema opressor criado pelo próprio Homem!
Assim, Fernão é banido do bando e o que parecia ser muito ruim a primeira vista se torna uma benção! Ele passa a viver na solidão, porém teve a possibilidade de realizar um processo de autoconhecimento e de teste de suas habilidades, o que só conseguimos fazer sozinhos. Só depois é que podemos compartilhar esse aprendizado com nossos irmãos e colaborar para o progresso da humanidade.

Ali está a grande transformação. Esse transformar chega ao ponto do místico e daquilo que não podemos compreender tão facilmente – ou seja, viajar por outras dimensões. Ele renasce para outra realidade, mais divina e sublime!
Existe uma conversa que acredito ser das mais importantes do livro entre o Fernão e seu mestre Chiang sobre o paraíso. Fernão começa dizendo:
“- Bem, e o que é que acontece depois disso? Para onde vamos? Não há um lugar chamado paraíso?”
“- Não, Fernão, não há tal lugar. O paraíso não é um lugar nem um tempo. O paraíso é ser perfeito...”
E mais a frente a conversa continua:
(...) “Porque nenhum número é um limite, e a perfeição não tem limites. A velocidade perfeita, meu filho, é estar ali.”
Ainda mais esclarecedor diz o Chiang:
“Lembre-se, Fernão, o paraíso não é um lugar nem um tempo, porque lugar e tempo não significam nada. O paraíso é...”
E o autor finalizava:
“Segundo Chiang, o truque estava em Fernão não deixar de ser aprisionado dentro de um corpo limitado cujas asas abertas abrangiam a distância de um metro e cuja eficiência podia ser traçada num mapa.”
Ou seja, isto é a tentativa em estar presente no aqui e agora. Não no futuro que ainda não aconteceu e nem no passado que de fato já deixou de existir.
Há uma energia vital presente em tudo, no ar, minerais e animais. Ou seja, existe um todo comum, um universo energético que está em todo o cosmos. Isso pode ser chamado de nomes diferentes: alma, espírito, energia cósmica, deus e variações.
Esse conceito vai muito além de crenças e filosofias religiosas. Hoje já existem comprovações científicas de que esses elementos são iguais e comuns a todos e tudo no planeta. Se reduzirmos a análise no nível atômico percebemos que prótons, elétrons e nêutrons são iguais em tudo inanimado ou com vida. Simplesmente existe uma única energia inicial comum a tudo.
Quando fazemos a pergunta existencial: Nós podemos mudar a nós mesmos? Não, não podemos, porque somos perfeitos e ilimitados. Para essa energia não existe nem tempo, nem espaço. Como mudar algo que é atemporal, não tem forma ou limitação. Não há nada a ser mudado! Mas para alcançar essa perfeição precisamos nos aquietar e silenciar nossa mente na dança do vôo praticada pelo Capelo Gaivota. O corpo-mente mortal, preso no mundo assim chamado real (da sobrevivência medíocre), deve ser abandonado. Isso só pode ser conquistado nesse estado do agora, por isso o mestre consegue evaporar e surgir em outros lugares e dimensões.
"Você tem a liberdade de ser você mesmo, você de verdade, aqui e agora, e nada pode impedir o seu caminho".
A tradição oriental claramente já tinha decifrado a existência de um vazio anterior. E existe uma correlação direta entre o Fernão Capelo Gaivota e a filosofia oriental de milhares de anos. Existe o I Ching – O Livro Sagrado das Mutações por exemplo. Esse livro começou a ser escrito há mais de 3 mil anos na China e foi a base do Taoismo, do Confucionismo e indiretamente do Budismo, tendo influenciado todo o pensamento oriental. O I Ching mostrou ao mundo o conceito do Yin e do Yang (claro e escuro, positivo e negativo, masculino e feminino, luz e sombra etc.) como energias opostas complementares, pensamento esse, que também originou o conceito do “caminho do meio” como visão de mundo defendida por todas as filosofias religiosas orientais.
Mas, além disso, o I Ching mostrou a existência do Tao, que nada mais é que o estado latente do Vazio, representado pelo Zero, que é imutável. Trata-se daquela energia inicial e vital onipresente. É o próprio divino encontrado por Fernão naquela outra dimensão. Existe ainda o Tao manifestado que é representado pelo Um, nele as transformações ocorrem o tempo todo e alternam entre o Yin e o Yang. Ou seja, dentro do mundo real, da dimensão em que vivemos na Terra. (Para se ter uma idéia, esse conceito sobre o Zero e Um originou o sistema binário usado nos computadores e o Yin e o Yang a dinâmica da eletricidade.)
Assim, quando a consciência atua na existência terrena, está naturalmente sujeita as mutações, chamada Lei da Alternância. Quando a consciência transcende a existência, ela se torna o próprio Tao, o Absoluto, que foi o que aconteceu com Fernão ao alcançar o estado da evaporação.
Por um lado parece ser super complexo, mas na verdade é muito simples. A existência está presente e ela não pede licença para se manifestar. As árvores não pedem autorização para germinar, nem a flor para soltar sua fragrância e nem os animais esperam aprovação para viver. Só a mente humana cria obstáculos e armadilhas para se afastar dessa ótima sensação de bem-estar proporcionada pelo divino. Portanto, vamos praticar nosso vôo livremente e de forma plena! Para terminar deixo uma citação:
“Acho importante a questão de ver e fazer as coisas de forma diferente. Pensar novo e não se acomodar com o primeiro obstáculo ou alguém que diz – não conheço ninguém que consegue voar como você – ou - não dá para fazer aquilo! Acho importante mudar e ser eternamente incomodado com a mesmice ou pré-conceitos! O que é ser livre afinal?”

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Om Namah Shivaya

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Possui um coração?

"Qualquer caminho é apenas um caminho e não constitui insulto algum – para si mesmo ou para os outros – abandoná-lo quando assim ordena seu coração. (...) Olhe cada caminho com cuidado e atenção. Tente-o quantas vezes julgar necessárias... Então, faça a si mesmo e apenas a si mesmo uma pergunta: POSSUI ESSE CAMINHO UM CORAÇÃO? Em caso afirmativo, o caminho é BOM. Caso contrário, esse caminho não possui importância alguma." (Carlos Castañeda, The Teachings of Don Juan – Os Ensinamentos de Don Juan)

Acho fundamental que se procure fazer o que gosta e apenas o que satisfaz! Ninguém lhe impede de fazer isso, a não ser você mesmo! Arrisco dizer que apenas seus pensamentos, sua mente propriamente dita o limita! E isso é uma simples ilusão. Faça essa investigação e reflita sobre isso. Nem seu corpo o impossibilita de nada, o corpo é ilimitado, ao contrário do que parece. O corpo é seu instrumento e não o contrário! Existe um verdadeiro ser – vou chamar de "eu verdadeiro" – ilimitado e imortal que se trata da pura consciência: ilimitada e infinita. Esse eu verdadeiro é quem deve escolher o caminho do coração, pois ele é o próprio "coração"! Isso parece ser muito metafísico e obscuro, ou impreciso e confuso! Mas faça uma reflexão e veja, se hoje, alguém impede você de fazer qualquer transformação em sua vida? Alguém impede você de trocar de profissão ou mudar de cidade ou de país e melhorar sua qualidade de vida? Morar na praia ou no campo e levar uma vida mais simples e tranqüila é perfeitamente possível! Praticar a filosofia do movimento slow life ("vida simples" em tradução livre) iniciado na Itália é claramente factível e milhares de pessoas em todo mundo já adotaram. Vale a pena tentar e encontrar o seu caminho! www.slowmovement.com entre outros sites